O amor extremado pelo Brasil pode até fazer o mais
ufanista dos cidadãos acreditar que aos olhos do mundo o país vai, a qualquer
hora, assumir sua condição de "gigante pela própria natureza", como
está escrito no Hino Nacional. Mas nenhuma nação pode ter esta estatura
tratando segurança com passos vacilantes, sempre pondo um tijolo no edifício e
retirando dois. A mais nova vítima da vocação para voltar atrás, neste terreno,
é o Estatuto do Torcedor (2003), que impedia frequentadores de estádios de
futebol de "portar objetos, bebidas (sobretudo as alcoólicas) ou
substâncias proibidas, suscetíveis de gerar ou possibilitar a prática de
atos de violência".
Vetada desde 2009, em Pernambuco, a liberação do
consumo de álcool nos estádios venceu por amplo placar (18 a 13), ontem, na
Assembleia Legislativa, que seguiu o exemplo de algumas casas parlamentares no
país, todas repetindo o mesmo discurso: os muitos episódios que resultaram em
pancadarias e mortes não estão associados a bebida, mas à guerra das torcidas
organizadas do lado de fora.
Porém, naturalmente, nenhum dos parlamentares
favoráveis à medida apareceu com os resultados de qualquer estudo apontando
para o que deixaria a população mais tranquila - o acesso fácil a bebidas
alcoólicas não contribuirá para o acirramento dos ânimos em dias de jogos.
Parece bastante razoável que, em momentos decisivos, as arenas se assemelhem a
verdadeiras panelas de pressão e que a paixão, elevada à décima potência e
associada ao consumo de álcool, acabe por desencadear comportamentos violentos.
Do mesmo jeito que os clubes defendem a liberação do consumo, alegando que a
impossibilidade de beber desestimula o torcedor e promove queda significativa
na bilheteria, pais podem, pela via contrária, voltar atrás na decisão de ir
aos jogos acompanhados dos filhos. E então aquela bela campanha que lutava pela
paz nos estádios, tendo a família como símbolo da possibilidade de
convivência pacífica entre as torcidas, estará candidata a entrar para o
museu das muitas invenções que não vingaram no futebol.
Para observadores de entendimento apenas razoável
está claro que o jogo de poder em que se insere a indústria de bebidas move as
pedras no tabuleiro desde a invenção das arenas construídas para a Copa do
Mundo - a de Pernambuco, por exemplo, tem o nome de uma cerveja - e
funcionou perfeitamente no evento. O consumo foi liberado durante os jogos do
Mundial e acabou abrindo precedente para os defensores da ideia cantar vitória
nas casas parlamentares. Por que não, também, dali para a frente? No entanto,
entre o comportamento de estrangeiros nos estádios onde há
consumo livre de bebida e o de brasileiros vai uma longa distância,
inclusive porque a exigência de se andar nos trilhos é proporcional aos
quilômetros que separam o visitante de casa.
Sem sutileza nenhuma, caminhamos para trás quando o
assunto é segurança, com o Estado brasileiro resistindo cada vez menos a dar
provas de que parece nanico impossibilitado de caber no pretensioso destino de
gigante para o qual diz ter nascido. O próximo a cair é o Estatuto
do Desarmamento, sob a desculpa de que o cidadão, entregue à própria
sorte, precisa se armar e se proteger. No entanto, com o mesmo revólver ele
poderá matar, ao mais leve sinal de contrariedade, o vizinho ou alguém no
trânsito, ameaça praticamente considerada uma invenção por parlamentares
simpáticos à ideia. Estes senhores não compreendem a ira, o estresse e a fúria
como resultado de uma sociedade minada por dificuldades que têm contribuição
decisiva da mesma classe política. São ciclos que não se rompem e lembram o do
cão girando na tentativa de alcançar o próprio rabo.
Com informações do Diário de Pernambuco.Novembro de 2015
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