22 de abril de 2015

A dança dos vitoriosos


Nina Souza nasceu com uma condição que nunca lhe permitiu andar. Encontrou a felicidade na dança, com performances premiadas sobre a cadeira de rodas


Até os 31 anos, a intérprete de libras Joseilda Souza dos Santos, hoje com 33, nunca havia andado de cadeira de rodas. Nascida com osteogênese imperfeita, também conhecida como doença dos ossos de vidro, foi carregada nos braços ou levada num carrinho de bebê até os cinco anos. “Um dia fomos a uma loja e me colocaram num triciclo. Andei nele como se já fizesse isso há muito tempo. Até hoje só ando de triciclo”, conta. No entanto, foi numa cadeira de rodas que Nina, como é conhecida, aprendeu a fazer uma das coisas que mais gosta atualmente: dançar.

Com sorriso tímido, conta que a atividade melhorou sua comunicação. “Depois que comecei, superei meus limites e deixei de ser tão envergonhada”, completa. Mas a dança trouxe outros dois presentes. Durante uma apresentação recebeu proposta de trabalho e no grupo onde ensaia, a Cia Cadências, conheceu o amor da sua vida. Rogério Silva, 28, professor de dança popular brasileira. é agora parceiro de Nina nas apresentações. “Já veio o pacote completo”, brinca Nina.

A primeira apresentação em público foi no carnaval de 2013. Foi a única vez em que ela dançou com o triciclo. “A Cadências estava realizando o projeto Frevo sobre rodas e me apresentei na Pracinha de Boa Viagem. Depois disso passei a ensaiar numa cadeira específica para dançar. É mais leve e tem rodinhas de gel.” Em abril de 2014, se apresentou no Dançando na rua, na Praça do Arsenal, onde voltará a dançar no dia 26.

A doença não a impede de fazer alguns movimentos exigidos pela dança. “Faz 16 anos que não fraturo nenhuma parte do meu corpo. Os médicos acreditam que o uso do triciclo me deixou resistente. Também não sinto nada quando estou dançando”, comenta.

Com os ensaios semanais no bairro de Jardim São Paulo, onde também participam outros cadeirantes, Nina foi tomando gosto pela atividade. “A dança mudou minha vida”, revela. Com o incentivo da diretora e coreógrafa da Cia Cadências, Liliana Martins, ela e Rogério se inscreveram no XIII Campeonato Brasileiro de Dança Esportiva em Cadeiras de Rodas, realizado em Minas Gerais em dezembro do ano passado. Voltaram para casa com o primeiro lugar na categoria para estreantes. “É muito gratificante ver o desempenho e a felicidade de Nina quando ela está dançando”, aponta Rogério.

Cotidiano de desafios

Ainda bem cedo, todos os dias, Nina Souza deixa sua casa em direção à estação do Metrô. Em cima do seu triciclo e acompanhada da mãe ou do namorado é deixada na plataforma para esperar o trem. Começa aí a aventura para chegar ao trabalho. “Tenho que pegar o metrô indo para Jaboatão e esperar ele fazer o retorno para o Recife. Se não fizer isso, não consigo entrar no trem quando ele chega na minha estação. É uma agonia danada. Muita gente não respeita o espaço dos deficientes. Algumas pessoas chegam a dizer que eu deveria ficar em casa e não estar ali ‘atrapalhando’ os outros”, desabafa.

Nina trabalha no cerimonial da Prefeitura do Recife. Para chegar até a sede do poder municipal ainda precisa pegar um ônibus quando desce na estação Central do Metrô. “Os motoristas já me conhecem e muitos deles me ajudam muito. Quem reclama são só os passageiros mesmo. Mas eu não desanimo de jeito nenhum. Fui convidada pelo prefeito Geraldo Julio para trabalhar na equipe dele e não vou deixar de viver a minha vida porque algumas pessoas não têm respeito pelo próximo”, ensina. 

Assim como faz na dança, Nina tira  de letras  os  obstáculos  que  teimam em aparecer na sua frente.“Depois  que  assisti  a uma  apresentação  de uma  dançarina  tetraplégica  que praticamente  não  tinha  movimento  nenhum,  pude ver que eu também teria como dançar com as minhas limitações .Nada  vai  me  fazer desistir  agora. Vou continuar trabalhando e dançando. Não  é porque temos  alguma deficiência que devemos ficar em casa esperando o destino”, ressalta.

Com informações do Diário de Pernambuco / Abril 2015

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